sábado, 28 de fevereiro de 2009

Um acontecimento e uma esperança em Pirenópolis.

Para encerrar as postagens sobre a 1ª FLIPIRI (Festa Literária de Pirenópolis), que aconteceu entre os dias 12 e 14 de fevereiro, gostaria de escrever sobre um acontecimento e uma esperança.

O ACONTECIMENTO:

Entre as programações da 1ª FLIPIRI, estava a visita de escritores a algumas escolas da região. Numa destas visitas, o escritor Marco Miranda (autor dos ótimos livros O Paradeiro do Padeiro e A Menina que Queria ser Gambá) foi surpreendido com o poema escrito por Lucas Henrique, aluno da rede pública de ensino.

Rico em rimas e realidade, o poema – lido em sala de aula pelo aluno – revela a vida simples do menino e sua família: a casa humilde, as roupas sem nenhum luxo, as dificuldades da família regida pelo pai agricultor. Mas a vida do menino não é feita só de agruras. Superando todas as dificuldades, Lucas nos revela o que move sua esperança por dias melhores: a força da união familiar, o amor farto e incondicional que encontra em casa.

Marco Miranda, emocionado com o que ouviu, usou da sua sensibilidade para convidar o menino a participar das atividades da Festa Literária ao final da tarde do sábado, apresentando seu poema ao público presente à Casa de Câmara e Cadeia.

Ao chegar ao local, acompanhado do pai e do irmão, Lucas foi apresentado aos autores que queriam ouví-lo recitar antes da apresentação oficial. O pai, ficou no pátio externo – orgulhoso da notoriedade do filho, mas talvez envergonhado da sua condição simples. O irmão mais novo seguia Lucas por todos os corredores.

O escritor Hermes Bernardi Jr. – a exemplo do que aconteceu com Marco – ficou emocionadíssimo ao ver o menino poeta. Ouviu atentamente o poema, conversou com Lucas e depois ofereceu e autografou um dos seus livros para o garoto. Um pouco nervoso com a exposição pública, Lucas só relaxou quando o irmão mais novo – sem esconder o sorriso e o orgulho - bateu em suas costas e disse: “- Aê, Lucas. Ganhou um livro autografado. Massa, heim?!

No final da tarde, o poema foi lido pelo autor para um público atento e igualmente emocionado. Aplausos ecoaram na sala e nos corações do todos. Lucas voltou para sua casa simples, para suas roupas sem nenhum luxo e para sua família repleta de amor. E é a partir deste ponto que destaco o outro tópico deste post: A ESPERANÇA.

Em nossa conversa com Lucas, o menino disse que gosta muito de ler, que já leu tudo o que podia na sua escola e que gostaria de ter mais livros ao alcance dos olhos. Nós e alguns escritores presentes prometemos enviar alguns livros para a sua casa, num sitio na periferia da cidade. Mas o que fazer com as outras crianças?

Uma Festa Literária numa cidade turística tem o poder de encher suas pousadas e movimentar o mercado local (Pirenópolis fica a pouco mais de 100Km de Brasília e Goiânia). Mas é de suma importância que as ações políticas do evento possam ultrapassar os limites dos três dias de festa.

Conversamos com o Secretário de Cultura da cidade, Gedson de Oliveira, e percebemos um interesse real de transformação. A integração com a distribuidora de livros Arco Íris (de Brasília) e as prefeitura de Pirenópolis, com a atuação da secretaria de Gedson, e as de Turismo e Educação ajudaram a fazer milagres neste primeiro evento. Tudo organizado com parcos recursos, alguns voluntários e muita boa vontade.

A próxima FLIPIRI está marcada para março de 2010. A esperança da qual escrevo aqui, é a de que possamos reencontrar Lucas Henrique e seus poemas por lá. Mas será ótimo encontrar também outros alunos apaixonados por livros, outras crianças embaladas por ótimas histórias, mais livros nas escolas, mais professores capacitados a lidar com literatura, mais pessoas da cidade participando da 2ª FLIPIRI.

Acreditamos que a prefeitura local e o Governo de Goiás possam trabalhar ainda mais lado a lado com pessoas que somam neste mundo do livro (como Íris Borges, que fez a mágica de brotar este primeiro evento) e desenvolver ações em torno do livro durante todo este ano para que a 2ª FLIPIRI seja mais rica também em participação popular.

Não podemos esquecer, como escreveu Ignácio de Loyola Brandão em sua coluna no Estadão, que o essencial destes eventos literários é “a tentativa de estabelecer o hábito da leitura, a formação do leitor que, uma vez capturado, jamais deixará de ler”. O povo de Pirenópolis está com a faca e o queijo nas mãos. Em terras goianas, isso pode significar um leque rico em sabores. Os Roedores de Livros já estão com água na boca para desfrutar do banquete do ano que vem. Hatuna Matata.

Legenda das fotos:
01 - Marco Miranda visita escola do município;
02 - O menino Lucas Henrique lê seu poema para Hermes Bernardi Jr.;
03 - Hermes presenteia o jovem poeta com seu livro Casa Botão;
04 - Lucas lê para público da 1ª FLIPIRI;
05 - Íris Borges e Ana Paula em papo informal na Casa de Câmara e Cadeia;
06 - Hermes e Ana Paula... o resto da legenda está na própria foto;
07 - Descontração no almoço: Lucília Garcez, Íris Borges, Jonas Ribeiro, Ana Paula, Hermes Bernardi Jr. e o pé de Marco Miranda;
08 - Autores e amigos presentes à 1ª FLIPIRI;
09 - Eu e Ana Paula tendo como fundo o acervo da I Maratona Fotográfica de Pirenópolis, exposta na sala de espera do CINE PIRENEUS.

4 comentários:

Lígia Pin disse...

Adorei tudo.
Gentem, que porta linda é essa??????

Cah Fortunato disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Hermes Bernardi Jr. disse...

Que post mais lindo e consciente, roedores! É de encher os olhos de água a lembrança de ter conhecido o Lucas e ouvido seu lindo poema. De fato, ele estava um tanto quanto "assustado" com o nosso assédio mas, creio, a euforia geral deveu-se à essa pontinha de Esperança revelada na voz e nas palavras desse menino. Talvez, a ocasião provocada pela sensibilidade do Marco, tenha aguçado a nossa Esperança de que as coisas ainda tem jeito. De que a literatura, sim, pode mudar o rumo das coisas. Essa nossa Esperança de saber que ainda há muitos caminhos a percorrer, juntos, para quem sabe descobrir não o pote de ouro no fundo do arco-íris, mas que há muito mais do que sete cores nele. Quando ofereci o livro Casa Botão ao Lucas Henrique, o fiz por descobrir em seus olhos um leitor ávido, sem vaidades, tal como o personagem de meu livro. Não imagino que dele o Lucas tire lições, afinal, não sou a pessoa mais certa para distribuí-las. Ofereci o livro a ele supondo que ao conhecer a história do botão vermelho o Lucas viesse a perceber que não está só. Nunca estamos, não é mesmo? Pelo menos é no que eu acredito. É no que eu preciso acreditar. Talvez ele também o precise.

beijos

Alessandra Roscoe disse...

Que lindo, meninos!
Mais do que roedores de livros, vocês são encantadores e saem por aí roendo as cordas que tentam amarrar, impedir o sonho e a fantasia. Lucas Henrique foi a melhor semente da Flipiri, sem dúvida, e muitas outras foram plantadas, vão florescer. Tomara que possamos regá-las ou simplesmente vê-las brotar onde quer que estejamos.
Grande beijo pra vocês!